
Reina a noite galante no profano santuário das bestas. O uivo excruciante que ecoa pela sinistra floresta, prenuncia o inevitável; o prodigioso advento da pálida soberana e sua impiedosa inquisição de espíritos. Tal qual cortinas que se abrem perante o prólogo do mais fascinante épico, as nuvens obscuras dissipam-se, suavemente, na incomensurável vastidão dos céus, outorgando sucessivo espaço para a majestosa ascensão de sua rainha e declinando, por conseguinte, esforços suplementares em encobrir as perfídias terrenas perpetradas através das Eras. Logo, na sumidade límpida da arcada celeste, predominando em alturas inconquistáveis, a lua, juíza máxima e primordial testemunha da subversão de Deus, se manifesta, prodigalizando sua infinita glória. Adornada pelo fastígio de sua fase crescente, sua composição exprime uma inexcedível poesia visual que parece, até mesmo, desconhecer as fronteiras da mortalidade, seduzindo anjos e demônios com seu magnetismo irresistível. A cintilação desmesurada, reproduzida pela sua face lívida e insigne, flerta, ardorosamente, com o revolto mar de quimeras abaixo, ansiando explorar seus segredos mais íntimos e tenebrosos. Como uma flecha disparada pelo arco de Ártemis, a luz sublime mergulha, irrefreavelmente, naquele execrável abismo de trevas, desbravando, com sua graça inconcebível, o nefasto espetáculo de vícios e mentiras intitulado "civilização". Perseverando com a sagrada cruzada, o véu lunar estende, intrepidamente, sua regozijante preeminência até o coração da selva e denuncia, com seu brilho magnificente, o efêmero e pernicioso palco da moralidade humana. Nele, um solitário personagem, trajando uma misteriosa máscara de cordeiro, encena, com insolência e mórbido deleite, suas abstrações vazias. Cingido pela claridade impetuosa, o artista abdica seu ensaio prescindível e passa a contemplar, com invulgar perplexidade, a sua própria e distorcida imagem, revelada na superfície fria e impassível de um espelho... um espelho há muito esquecido. Na medida em que busca, obstinadamente, reconciliar-se com seu revérbero disforme, a máscara e suas frágeis camadas, vagarosamente, desmantelam-se diante da implacável luz do expurgo. Sua imaculada e fulgurante força penetra, com arrebatador desejo, no mais sórdido dos disfarces aformoseado pelos facínoras; a inocência. Um terrificante e prolongado grito ressoa pelo caótico labirinto do ser, asseverando o epílogo da ardilosa fantasia. Incondicionalmente, rompem-se os aleivosos grilhões da sua asfixiante prisão moral, redimindo a verdadeira imagem imersa na escuridão profunda e inexorável da sua alma corrupta; o algoz de sonhos insurge, impávido, triunfante, e o reflexo do lobo no espelho da consciência torna-se visível agora. O teatro de hipocrisias é perjurado, e destarte, sem mais padecer de contradições malogradas, o antigo juramento celebrado com os cordeiros é quebrado. Com derradeira veemência, a criatura faz renascer seu real esplendor, faz emergir uma beleza selvagem e renegada, ao passo em que se entrega, sem hesitação, ao que foi e sempre será a sua irrenunciável natureza animal. Agora, com seu verus ego desnudado pelos seus instintos mais vorazes, o predador supremo, rei dos assassinos, senhor do medo e da inclemência, reencontra o legado ancestral de sua alcatéia, um legado emaranhado nas vísceras do seu cerne. A fúria bruta e vingadora alastra-se, desenfreadamente, pelo desguarnecido plano dos vivos. O lobo, enfim, reclama seu destino.
Fabula mores: Tentar encobrir a natureza animal do homem com a máscara da civilização é tão inútil quanto tentar docilizar um lobo faminto.

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